quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Encontrei nossa foto


Encontrei nossa foto. E com ela, encontrei também sentimentos ainda existentes em mim, que na correria dos dias, foram camuflados pelas responsabilidades da vida adulta. Eles voltaram como uma lembrança tão intensa e dolorosa, não me deixando outra escolha além de vivê-los uma vez mais, senti-los, absorve-los ao escutar cada uma das canções que um dia chamamos de (nossas). Era tudo tão plural. Era tudo tão nosso. Nosso tempo. Nossas músicas, lugares, e nossas demonstrações de afeto. Era aquele sentimento caloroso de saber que haveriam vozes na linha do telefone, sempre que precisássemos. A sensação de adrenalina ao ver o anúncio da festa badalada e pensar que teríamos as companhias certas. Era o cuidado pra estudar junto nas quinhentas recuperações de matemática, física, química. A confiança pra dividir medos e paixões. Os segredos e empurrões. Era aquela vontade de se fazer presente na ausência, sem obstáculos e preocupações.

E nossa amizade foi isso. 

Foram aquelas mensagens subliminares na lousa, deixadas em todos os intervalos. Foram as invenções pra passar o tempo nas trocas de aula. Foi aquele caderno tipo jornal pra anotar tudo que acontecia na escola. Foi aquela blusa estampando nossa frase. E aquele CD com todas as músicas que mais marcaram nossa história.

No final, acho que foram todas essas pequenas coisas e tanto a mais... E assim, consigo perceber a paixão que existia em cada ato daqueles dezessete. Mas paixão passa assim como o tempo. No lugar dela, ficou um pouco de tudo. De amor. De dor. E talvez arrependimento... Por ter deixado nossos momentos irem se perdendo aos poucos. Por diminuir as mensagens, os telefonemas e encontros, nos colocando em uma caixinha dessas que ficam lá em cima do meu armário, cheia de lembranças materializadas.

E eu fico aqui, no meio de um feriado, pensando:

Será que é muito tarde pra nos tirar de lá?



domingo, 12 de novembro de 2017

Os laços que permanecem


Hoje, voltando pra casa, deparei-me com uma cena bonita pra acalmar os ânimos, desacelerar e, então, deixar de ser protagonista da minha vida tão inquieta pra ser telespectadora de outra história, mais antiga que a minha (não menos importante, é claro).
Lá, nos dois primeiros acentos do ônibus, aqueles destinados pra um grupo seleto de pessoas, duas senhorinhas repousavam. Os pezinhos cobertos pelas marcas do tempo, repousando na parte que lhes era destinada. Descalças. Leves. As duas de cabelos grisalhos e roupas floridas. Uma mistura geniosa de sabedoria e simplicidade. Conversando e rindo de coisas que não pude entender, mas logo notei que eram próximas. Não estavam dividindo aquele assento como meras almas que o destino colocou ali, não. Elas eram próximas. Amigas. Talvez irmãs. Algum tipo de conexão profunda que me fez pensar no tempo e nas pessoas que amo. Naquele instante, quando vi a maior delas abrindo um pequeno pote para pegar uma maçã enquanto a menor tentava matar alguns pernilongos, percebi que aquela cena não era só delas, era minha também. Delas e dos meus pensamentos, que me colocaram a pensar na beleza daquele momento, da simplicidade da vida. Olhei pros meus pés. Nenhuma marca do tempo. Olhei de volta para elas, lembrando de vezes assim, ônibus, amigos, melhor amiga. Pessoas que amo. Já estive ali, naquela situação, sem marcas do tempo na pele. Pensei. Rezei. Pra Deus e pro Destino. Pra estar ali, daquele jeito, com aquela alegria serena e com alguém que eu ame pra dividir o banco ao lado, não importando em qual ano dois mil (e tantos) eu esteja.