sábado, 15 de dezembro de 2012

Tudo o que queremos


Estou sentada em uma cadeira velha, o tecido rasgado, e posso sentir o pouco que restou do acolchoado se espremer contra minha calça jeans, o que vai me causar um belo incomodo nos minutos seguintes, mas, ainda dá pra aguentar. Sem mais nada pra fazer na minha sala, observo de relance as crianças que brincam de algo que parece divertido. Correm de um lado pro outro encostando as mãos no ombro uma das outras enquanto gritam meia duzia de palavras. Acho que é um tipo de pega-pega, sei lá. Só sei que continuam correndo sem cansaço nem pausas. Foi-se o tempo em que eu tive esse ânimo, essa vontade de pular corda e correr descalça como se a vida fosse leve igual seu corpo com pouca idade. O tempo passa e a verdade é que tudo começa a pesar, os anos, as costas, o sono perdido nas madrugadas. E mesmo que essas coisas possam ser esquecidas por alguns momentos, elas não vão embora completamente. Não adianta se enganar, não é mais como ter dez anos.

Ao fundo toca a canção que eu costumava ouvir quando tinha essa idade, as crianças que não estão brincando de correr, dançam e tentam acompanhar a letra. Outras estão sentadas, brincando com algum jogo de tabuleiro.

Uma delas, a mais doce de todas, aproxima-se de mim e estala os lábios com gloss de tutti-frutti na minha bochecha direita. Eu abro um sorriso e ela faz o mesmo revelando sobre o quanto ama ser carinhosa com as pessoas. E eu penso que ela realmente faz isso com louvor. Se eu fosse sua mãe, estaria orgulhosa.

Ela puxa uma cadeira e senta ao meu lado, alisando uma mexa do meu cabelo com as mãos enquanto a música muda para a faixa posterior, uma mais romântica começa a tocar, e me faz lembrar do meu primeiro amor de infância.

- Laura, você gosta de algum menino? - eu pergunto.
- Eu gosto, professora, ele é lá da minha escola - ela revela.
- Mas vocês se falam, lancham juntos, brincam no intervalo?
- Às vezes.
- Andam de mãos dadas?
- Não, professora, não. Nós só conversamos.
Reflito um pouco e balanço a cabeça em sinal positivo.
- Muito bem, Laura. Quando eu tinha sua idade eu também tive meu primeiro paquera, mas, não dava as mãos nem nada do tipo. Era algo inocente e puro. Algo certo para alguém com nove anos de idade. Você só achava o menino bonito e gostava de conversar com ele, nada demais.
- Aham - ela concorda com os olhos bem abertos. Castanhos e iluminados por uma meiguice digna de admiração.
- O amor torna-se diferente dez anos depois, Laura. Eu sinto saudades de como era...
Sua expressão muda, algo como dó ou confusão fica pendurado em seu semblante.
- Por que, professora?
- Porque quando você é criança e descobre que gosta de alguém, não passa disso. Você gosta, e gostar das pessoas nos faz bem. É um sentimento bom - paro de falar por um segundo, respiro fundo, e continuo - No final da tarde, não importa o que aconteça, você vai estar feliz e ver seu desenho favorito. É mais fácil esquecer as coisas ruins com essa idade... Elas não perduram, sabe? Quero dizer, não duram tanto tempo. Se você brigar com o tal garoto, vai levar algumas horas, no máximo, para voltarem a se falar como se nada tivesse acontecido.
- Isso é verdade - ela diz.
- Sim. Por isso é importante não se envolver tão cedo nesse mundo de relacionamentos. São coisas que deveriam ser adiadas o máximo possível. Ser criança e poder agir como uma é algo especial, algo que deve ser aproveitado.
Penso em todas as outras meninas da mesma idade que a dela, a maioria com pensamentos tão diferentes. Elas já falam em beijos e "namorados", e eu volto a lembrar que nessa idade tudo que me interessava era qual brinquedo eu ganharia no natal.

Laura encara meu rosto por mais um tempo com aquele sorriso angelical depois de dizer que gosta de como sua vida é, de poder brincar e se divertir. E eu espero que ela pense assim por mais uns bons anos antes de ser jogada no mundo dos adultos, esse mundo cheio de blablablá onde ninguém mais tem certeza de nada e tenta se livrar das dúvidas em goles de destilados.

Com nove anos eu sempre tive uma certeza.
Com nove anos todo mundo tem uma certeza.
Só... Quer ser feliz.




2 comentários:

Bia Hain disse...

Concordo que hoje em dia há muitas atitudes precoces que queimam a bela etapa da infância. Mas se você continua com sua certeza dos nove anos, será feliz sempre. Um abraço!

Bia Hain disse...

Laís, voltei para desejar Feliz Natal, que você tenha momentos inesquecíveis!