quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dezenove gotas de chuva.


Caroline fala há horas, quase sem parar, sobre algum de seus problemas do momento. Acho que é algo relacionado a falta de animo pra sair de casa, e em como se afastou de seus antigos amigos. Eu balanço minha cabeça, concordando com tudo, e interrompo-a vez ou outra para fazer algum comentário desnecessário. Tento, tento mesmo parecer interessada no rumo da conversa, apesar de já ter discutido algo parecido durante todos os nossos encontros anteriores. Mas eu não posso me queixar demais, sei que também não sou a melhor pessoa do mundo pra variar nos assuntos. Por mais que eu evite,  tem sempre um  instante despretensioso onde eu acabo citando aquele nome, e mais uma vez me olham com cara feia, como se fosse pecado eu ainda citá-lo. Bem dizer, antes ela desabafando, do que eu remoendo o passado. Se ela quer falar sobre o quanto se sente vulnerável, tudo que eu posso fazer é ouvir, e fingir que acredito fielmente nos conselhos que dou.

O bate-papo nos mantem entretidas enquanto comemos nossos lanches, e eu nem me importo de mastigar devagar, porquê sei que o céu está desabando lá fora. Sou uma amante incorrigível de dias chuvosos, mas avalio mentalmente nossas opções para a noite, e percebo que seria muito melhor se não estivesse chovendo, ou se pelo menos, tivéssemos um carro. E como não é o caso, decido ligar para Nicollas na esperança de que ele encontre uma solução. Observo Caroline ir ao caixa pagar nossa conta, enquanto o toque babaca do celular de Nick ecoa em meus ouvidos.

- Alô?
- Nick! Tá chovendo! Quero sair daqui! Quem vai buscar a gente? O quê faremos?
- Espera... Calma. Calma.
Noto que fiz de novo. Joguei mil perguntas em uma afobação sem fim.
- Ok. Mas, faz alguma coisa. Você tá de carro?
- Não, não estou.
- E que horas sai do seu trabalho?
- Daqui a pouco. E eu vou aí onde vocês estão, e nós vamos pra algum outro lugar.
- Nicollas! Tá cho-ven-do! Não vamos sair assim...
- Não tá chovendo forte, e bom, eu vou ir aí, e depois nós resolvemos. Certo?
- Tudo bem. Até mais.

Desligo o celular, recebendo o olhar reprovador de Carol, com um "não vou sair na chuva" implícito ou explicito, sei lá. Eu sabia que ela não iria concordar. Era tão obvio quanto pedir à um felino que tomasse um banho. De qualquer forma, minha noite não pode acabar assim, ainda mais sendo véspera do meu aniversário. Não que eu ligue, - desde meus doze anos que não dou a mínima pra essa data -, mas também não queria ir para casa  antes mesmo de dar meia noite, em plena sexta-feira. Isso já era pedir demais pra minha personalidade inquieta.

E depois de uns vinte minutos, lá está ele. Molhado, com o cabelo escuro moldando o rosto, e um sorriso grande nos lábios. Ele caminha até onde nós estamos, na porta da lanchonete, e se desculpa pelo pequeno atraso. Assentimos com a cabeça, e Caroline pergunta como vamos sair dali. Ele responde o quê eu já imaginava, que nós vamos andar pelo centro da cidade para ver como está o movimento nos nossos lugares favoritos. Penso na minha maquiagem impecável e no quão chato seria borrá-la e ficar com o cabelo despenteado, mas percebo que a chuva forte já passou, e que só algumas gotinhas caem do céu, então, não pode ser tão complicado assim.

Decidimos acompanha-lo, e saímos os três rindo e pulando as poças d'água na calçada. Mas antes mesmo de chegarmos a algum lugar divertido, a chuva volta a cair intensa, nos fazendo correr sem rumo, em busca de um local coberto. Atravessamos uma rua qualquer, chegando em uma esquina, e então Nick para e me abraça apertando, mesmo com as gotas molhando nossas roupas. Eu grito "Me larga! Estou ficando ensopada!", e ele ri enquanto me deseja um feliz aniversário. "Já é meia noite?" pergunto, soltando-me do abraço. Meus dois amigos respondem um "sim" entusiasmados, e é a vez de Carol me apertar em seus braços, deixando-me quase sem ar. Dou risada, não conseguindo me lembrar de ter tido um aniversário tão maluco quanto esse.

- Eu vou acabar pegando gripe em pleno aniversário! - finjo estar preocupada.
- Para de reclamar, Sofia. - Nicollas dá um empurrão no meu ombro.
- Mas é verdade... E a culpa vai ser de vocês. - afirmo, mesmo sabendo que a que mais queria dar voltas na cidade era eu.
- Tá bom, tá bom. Olha meu cabelo! - Carol fala em um tom estressado - Vamos achar algum lugar seco, por favor? - não consigo evitar uma gargalhada ao observa-la melhor.
- Vamos! - Nick responde.

Eu olho mais uma vez pra'quela esquina antes de nos afastarmos, para gravar aquele momento especial em minha memória. Está tudo tão perfeito. Perfeito com todas as bizarrices. Perfeito pra mim. O que mais eu poderia querer além de chuva, risadas, maquiagem borrada, abraços, e melhores amigos?

6 comentários:

Inercya disse...

Às vezes coisas simples nos fazem muito feliz e ficam na memória. E claro, tendo boas companhias do nosso lado completam o nosso dia que cinza, se torna colorido :)
:*

bibimiga.com disse...

adorei os melhores momentos da nossa vida passam dispercebidos mais essa historia nos fez perceber.
bjo
amei

Dany Scaffo disse...

Amei. Não tem coisa melhor do que um parabéns inesperado em um local inesperado. rsrs.



Beijos e bom final de semana.
http://diariodasunhas1.blogspot.com.br/

Giuliano M. disse...

foi bom pra mim ler suas palavras!

...E eu adoro chuva, andar e me molhar.

"se eu soubesse que ia chover"

um abraço

Roberta Galdino disse...

nem me fale meu bem... minha realidade as vezes me atormenta de uma forma insuportável.. mas nada posso fazer senão esperar que passe..

obrigada pela visita, beijos



gosto muito do seu blog

Roberta Galdino disse...

ah, se quiser me passar seu e-mail. ou msn, ou face.. seria de bom grado beijos